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Primeira angioplastia da América Latina feita em Curitiba faz 30 anos

Esta semana, o aposentado Assis dos Santos de Oliveira teve bons motivos para comemorar. Há exatos 30 anos, ele era o primeiro paciente da América Latina a ser submetido a uma angioplastia. A façanha foi realizada em Curitiba, pelas mãos do cardiologista Costantino Roberto Costantini. São poucos os pacientes que após tanto tempo estão em plena atividade. Assis pôde experimentar a evolução do procedimento realizado inicialmente com a inserção de um balão para desobstruir a artéria. Depois da primeira angioplastia passou por associação de novas técnicas até o uso de stents - dispositivos que abrem o canal tomado pela camada de gordura, chegando hoje aos stents farmacológicos, que liberam medicamentos e auxiliam no processo de desentupimento. Ao passar por Curitiba para um check up de rotina, o aposentado foi submetido a mais um procedimento, o oitavo em 30 anos, e já está pronto para retomar suas atividades no interior de Santa Catarina, onde cuida de sua lavoura. No outro lado, Costantini também comemora. Em 1979, enfrentou várias críticas desferidas pela comunidade médica e fez a angioplastia em Assis dos Santos. Na época, pacientes como ele eram encaminhados à cirurgia cardíaca com ponte de safena. A angioplastia se apresentava então como alternativa à cirurgia a peito aberto.

 A única opção existente era a inserção, por uma artéria do braço, de um pequeno balão até o local do entupimento, para ser insuflado. Desta forma, esmagava a placa de gordura contra a parede da própria artéria, desintegrando-a e permitindo a passagem do fluxo sangüíneo. “Comemoro a vida nova todos os dias. Graças a angioplastia naquela época continuo vivendo bem e sinto-me muito forte”, diz Oliveira, que, aos 85 anos, mora em Lages (SC) e cuida de sua própria lavoura.

Atualmente, a angioplastia coronária, inicialmente muito indicada para lesões de apenas uma artéria, evoluiu para desobstruir vários pontos das coronárias. É recomendada ainda para desentupir outras artérias, como carótidas e aorta. Logo após as primeiras angioplastias, Costantini iniciou na América Latina, de forma pioneira, a realização do procedimento nos casos de infarto agudo do miocárdio. Duramente questionado por isso, no início de 1980, hoje esta técnica é reconhecida mundialmente como a primeira opção de tratamento em casos de infarto.

Defensor reconhecido do procedimento, o diretor do Hospital Cardiológico Costantini explica que entre as vantagens estão no tempo de recuperação, o menor índice de complicações e mortalidade, tempo de hospitalização e recuperação cognitiva (cerebral). Estudos realizados num dos mais respeitados centros médicos do mundo, a Cleveland Clinic, dão conta de que o índice de fechamento de ponte de safena, após o primeiro ano, é de 22% e as pontes com artérias mamárias, 7%. Já nas angioplastias que utilizam stents farmacológicos o índice de oclusão (fechamento total sem passagem de sangue) é de apenas 2% após um ano. A taxa de reestenose, reentupimento parcial, é de 8 a 10 %. A de mortalidade, nas angioplastias eletivas, é de apenas 1,5%, nos casos de múltiplas artérias desobstruídas.

Desde o dia em que a primeira angioplastia da América Latina foi realizada, Assis dos Santos continua sob os olhares atentos de seu médico de confiança. Periodicamente ele faz consultas, exames e procedimentos para acompanhamento clínico. Agora, o homem que passou pelo procedimento que, na época, era um avanço na cardiologia, novamente passou por uma das mais modernas técnicas da área.

O aposentado fez uma nova bateria de exames. Foi submetido às mais evoluídas tecnologias para diagnóstico cardiovascular existentes. Além dos exames tradicionais, fez uma cintilografia coronariana, que avalia como está a irrigação sanguínea no músculo do coração; uma tomografia, seu coração foi analisado por imagem tridimensional que oferece maior precisão da condição da artéria; e ainda, passou pelo novíssimo OCT, tomografia de coherência óptica, tecnologia existente



História


Mais do que entrar para a história da cardiologia intervencionista, Oliveira estava mudando sua própria história. Na época, o aposentado começou a sentir dores no peito. Para que seu coração continuasse recebendo o fluxo sangüíneo, era necessária uma intervenção, que deveria ser cirurgia cardíaca. No entanto, o cardiologista Costantino Roberto Costantini tinha outra sugestão – tentar a ainda pouco conhecida técnica da angioplastia. Por meio de um pequeno corte no braço, ele iria inserir o balão nas artérias coronárias para ser insuflado, esmagando a placa de gordura contra as paredes da artéria.

Pai de 11 filhos, Oliveira aceitou a experiência porque lhe dava a perspectiva de recuperar mais rapidamente uma das coisas que sempre lhe foram mais importantes – a qualidade de vida. Enquanto uma cirurgia o manteria em repouso por cerca de 45 dias, seguido por um longo período de recuperação, a angioplastia permitiria o retorno à vida normal em um tempo muito inferior – somente alguns dias.

“Hoje, Oliveira representa o exemplo vivo da evolução da doença coronária, que, sem os devidos cuidados, tratamentos e prevenção, continua desenvolvendo, conforme os fatores de risco presentes na pessoa”, afirma Costantini. Isso porque, segundo relata o cardiologista, após o primeiro procedimento, o paciente ainda foi submetido a outros similares – o que mostra que a doença coronariana não tem cura, mas pode ser tratada e sua evolução, prevenida. Em 1992, passou por um rotablator, seguido de angioplastia e, em 1995, recebeu um stent na porção distal da mesma coronária direita, em outro segmento da artéria.

Em 2005, foram implantados quatro stents farmacológicos, que liberam medicamentos. “Porém, vale lembrar que o mais marcante é que o local onde foi feito o primeiro procedimento permanece com os mesmos resultados obtidos em 1979”, destaca o diretor do hospital. Ele ainda afirma que a angioplastia tornou-se um marco histórico para o tratamento da doença coronariana. Pode evitar a cirurgia cardíaca em grande parte dos pacientes ou, pelo menos, protelá-la. No caso de Assis, por exemplo, se não fosse a angioplastia, ele teria sido submetido a mais de uma cirurgia, tendo em vista a evolução da doença coronariana dele. “Aceitar o procedimento foi a decisão certa. Hoje tenho uma vida bastante ativa e acredito que assim como eu muitas pessoas estão se beneficiando”, conclui.