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Hospital Cardiológico Costantini é centro de estudos de células-tronco no infarto agudo

Em setembro de 2006, Curitiba deu um importante passo na pesquisa sobre o tratamento do infarto agudo do miocárdio com células-tronco. O Hospital Cardiológico Costantini, na capital paranaense, recebeu um dos dois primeiros pacientes a serem incluídos no estudo mundial – o outro, foi incluído, simultaneamente, no Rio de Janeiro. O Hospital Cardiológico Costantini é um dos 33 centros escolhidos em nove estados e no Distrito Federal pelo Ministério da Saúde para participar do maior estudo do mundo com células-tronco em pacientes com doenças cardíacas, realizou o procedimento. O paciente chegou ao Hospital Costantini com quadro de infarto agudo. Após os primeiros socorros, ele foi submetido a uma bateria de exames que o indicaram como paciente apto a participar dos estudos e aceitou ser incluído. “Foi um momento histórico para o hospital e para a Medicina. Demos um passo muito importante nos avanços da medicina cardiovascular, que poderá beneficiar milhares de futuros pacientes”, observa o cardiologista Costantino Costantini, diretor do Hospital Cardiológico Costantini. Uma equipe do hospital Pró-Cardíaco, do Rio de Janeiro, centro-âncora dos estudos de células-tronco para o infarto agudo do miocárdio, acompanhou todo o procedimento. De acordo com o cardiologista deste hospital, André Luiz Silveira Soares, outro paciente, também vítima de infarto agudo, foi incluído no estudo simultaneamente no Pró-Cardíaco.

Iniciada em 2005, a pesquisa nacional sobre células-tronco no tratamento de doenças cardiovasculares tem o objetivo de observar os efeitos do implante em quatro tipos específicos de doenças cardíacas – cardiomiopatia dilatada, doença isquêmica crônica, doença de Chagas e infarto agudo do miocárdio. O Hospital Cardiológico Costantini, que já possui pacientes no braço do estudo da Cardiopatia Isquêmica Crônica, está também credenciado para participar dos estudos com células-tronco relacionados ao infarto agudo do miocárdio.

O credenciamento da instituição pelo Ministério da Saúde permite que, conforme os critérios estabelecidos pela pesquisa, vítimas de infarto agudo atendidos no Hospital Cardiológico Costantini – e que aceitem por vontade própria participar dos estudos – façam parte deste momento histórico na Medicina. “O objetivo do tratamento é mais do que salvar o paciente, mas prolongar a sobrevida e a qualidade de vida após o infarto”, explica Costantino Costantini Ortiz, diretor científico do hospital.

De acordo com as diretrizes do estudo randomizado, as células-tronco deverão agir no músculo do coração que, afetados pelo infarto, têm sua atividade principal comprometida. Para fazer circular o sangue pelo organismo, o coração depende da força da contração muscular. Quando ocorre o infarto agudo, parte do músculo cardíaco morre, levando a uma diminuição da força de contração do coração, o que implica em insuficiência cardíaca. O grau de insuficiência depende da extensão do músculo infartado. O paciente torna-se fraco, sofre de cansaço, arritmia, entre outros problemas. A idéia é que as células-tronco recuperem esse músculo inativo e façam com que o coração recupere, de forma parcial ou total, a sua força de contração.

Passo a passo

Ao receber uma vítima de infarto agudo do miocárdio, a equipe do Hospital Cardiológico Costantini, após os procedimentos de primeiros socorros, informa sobre o programa e questiona se este paciente aceita participar do estudo com células-tronco. Havendo interesse, ele é submetido a uma análise rigorosa, que avalia seu quadro clínico para, só então, verificar se pode ou não ser incluído nos grupo do estudo. O infarto deverá ter ocorrido em menos de seis horas, o quadro de saúde precisa ser estável, o paciente não pode ter doenças graves (como tumor e problemas hepáticos), deve ser maior de idade, não pode ter mais de três artérias comprometidas, entre outros critérios. Nesse caso, ele assina um termo de consentimento e uma filmagem do coração verifica se o índice de contratilidade do órgão é inferior a 40%. Se estiver abaixo desse numero, significa que não está contraindo o suficiente para bombear o sangue normalmente.

No quinto dia após a angioplastia – procedimento que, com o implante de um pequeno stent (malha de aço recoberta com medicamento), libera a artéria obstruída pelo coágulo, permitindo a passagem do fluxo sangüíneo – realiza-se a punção de até 100 ml de medula óssea, de onde serão retiradas as células-tronco do paciente.

O material é encaminhado ao laboratório celular. No Paraná, o Costantini é o único centro de pesquisa que tem o laboratório junto ao hospital. Em três horas de preparo, as células-tronco são isoladas. O laboratório recebe do centro-âncora da pesquisa (no caso, o Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro) a orientação que diz se o paciente receberá as células-tronco ou placebo. Esse procedimento faz parte da randomização do estudo – somente metade do grupo de pacientes receberá realmente as células-tronco. A outra metade será tratada convencionalmente. Nem o paciente, nem o médico saberão que tipo de tratamento o paciente recebeu. Desta forma, é possível fazer a comparação ao final do estudo e saber se os pacientes com células-tronco reagiram melhor do que os demais.

Células-tronco

O paciente volta para o centro de hemodinâmica do hospital e passa por um novo cateterismo. Desta vez, o cateter (sonda que entra na artéria responsável pelo infarto) possui um balão com uma luz central. Ao insuflar no interior da artéria, o balão obstrui o fluxo sangüíneo para que as células-tronco sejam injetadas diretamente na área afetada pelo infarto agudo. “Desta forma, reduzimos as chances do fluxo sangüíneo carregar as células-tronco para outras áreas, o que implicaria em uma menor quantidade de células tronco no músculo cardíaco infartado”, explica Costantini Ortiz. Este procedimento dura por volta de três minutos e, após algumas injeções, o paciente recebe cerca de 10 milhões de células tronco ou placebo, de acordo com o protocolo.

Como as células-tronco, em vez de se multiplicar têm a propriedade de se transformar na parte que o organismo precisa, a expectativa é que, uma vez implantadas na parte do coração afetada pelo infarto, elas passem a cumprir a função que o músculo já não consegue mais ou que formem novos vasos sangüíneos para melhorar a oxigenação do músculo do coração. “Assim, esperamos que o coração deste paciente volte a ter a contratilidade necessária para ter uma vida o mais próximo ao normal”, conclui o cardiologista. Todos os envolvidos no estudo são acompanhados de perto durante o período de um ano. Ao final dos seis primeiros meses, espera-se que já sejam visíveis alguns resultados.

Independentemente de integrarem o grupo que receberá células-tronco ou tratamento convencional, todos os que aceitarem participar do estudo terão os melhores cuidados. “O stent implantado será o farmacológico, revestido com medicamentos que reduzem sensivelmente o risco de reestenose – reobstrução da artéria. Trata-se do que há de mais moderno na angioplastia atualmente”, afirma o diretor científico do hospital.

O estudo

A pesquisa da qual o Hospital Cardiológico Costantini participa faz parte do maior estudo com células-tronco no mundo, tanto pelo número de instituições participantes quanto pelo volume de pacientes – 1,2 mil ao todo para as quatro doenças específicas. Caso os resultados positivos sejam confirmados, a expectativa é que, com o aumento da sobrevida e da qualidade de vida do paciente, as vítimas dessas doenças tenham menos necessidade de voltar ao hospital, além de reduzir o volume de medicamentos e tratamentos posteriores. As doenças cardiovasculares são hoje as principais causas de morte no País, responsáveis por 32% dos óbitos.